A corrupção nossa de cada dia
(28/09/2010)

A mente humana é fantástica a ponto de auto-enganar-se e palmilhar a vida numa normalidade aparente, já que as nossas atitudes são demasiadamente anormais. Só podemos averiguar isso, quando resolvemos aprofundar nosso olhar à imagem refletida de nós mesmos num espelho.

Numa época em que discutimos tanto uma saída para a corrupção instalada nos poderes constituídos, esquecemos de que ela nasce no seio do próprio lar, "se parar de chorar dar-te-ei um doce...", "se passar de ano, ganha uma bicicleta". Creio que o homem não nasce corrupto, aprende a sê-lo desde a mais tenra infância.

A palavra corrupção origina-se a partir da palavra grega "corruptos" que significa pútrido, tornar podre. A corrupção somente ganha corpo, alma e sentido quando confrontada com as pressões sociais de nossa cultura, que por sua vez sofre grande influência espacial e temporal, o que encontra respaldo em Rousseau "o homem é fruto do meio".

No rol da corrupção também consta a prece, pois somos agentes corruptos inconscientes. Ou seja, nos comprometemos a levar uma vida regrada em troca de um lugar a direita do "sempiterno", imortalidade da alma... sem falar das grandes chantagens como: "se for curado acenderei uma dúzia de velas para santo fulano... subirei de joelhos as escadas de tal santuário, doarei tantas cestas básicas para os pobres...". Desejamos grandes vantagens e elas têm de vir até nós, pois, sair de nossa zona de conforto dá muito trabalho, além do mais, desprendimento e sacrifícios exigem demais da alma que possui queiramos ounão uma vocação natural para o ostracismo.

Não percebemos, mas realizamos nossas ações em busca de um benefício atual e/ou futuro, como dizia Gerson no antigo comercial do cigarro Villa Rica "Gosto de levar vantagem em tudo, certo? Leve vantagem você também". E nisso, somos mestres, e para não sofrer represarias, mascaramos nossas tão descaradas intenções em boas ações, ou seja, damos uma roupagem colorida e bem comportada ao utilitarismo que carregamos de forma subterrânea e intrinsecamente conosco, sem falar dos eufemismos que empregamos para turvar nossos defeitos, vícios e paixões como: "dar aos pobres" para não dizer "sou co-dependente da caridade, ou seja, preciso manter os menos favorecidos sempre dependentes de minhas migalhas, pois dependo deles para que os que cercam-me possam rotular-me de bom cidadão" e neste jogo nem mesmo o altruísmo escapa, pois ele também é um eufemismo, quem faz, o faz consciente e espera algo em troca.

No entanto, porque agimos e somos assim? Creio que por ainda não termos encontrado um sentido lógico e concreto da existência, necessitamos de marcar, imprimir ao menos nossos passos nela, isto é, necessitamos exercer poder e nos auto-afirmarmos até mesmo para respirar e isso torna-se um exercício diário e inconsciente pelo qual sem perceber vamos levando a vida, sem saber verdadeiramente o que há para além da ultima curva escura da existência humana. Viver resume-se em jogar. O jogo por si só é desonesto. Eis a razão de nossas investidas fantasiosas e de auto-enganação. Resumindo, somos desonestos e corruptos principalmente conosco mesmo.



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    Sobre o autor
Davi Roballo

Jornalista e poeta
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