EXPERIÊNCIA NO ACAMPAMENTO ANTÔNIO IRMÃO - MST
(11/10/2010)

Localizado às margens da BR 163, no municipio de Itaquiraí, a 350 quilômetros de Campo Grande e a 150 km. de Dourados, o Acampamento Antonio Irmão existe já há três anos. Nele moravam cerca de 150 famílias. Com a chegada dos brasiguaios neste ano, são quase 500 famílias. Um número que continua crescendo.
A partir da década de setenta, milhares de agricultores brasileiros se mudaram para o Paraguai, atraídos pela oferta de trabalho e terra barata. Eles receberam o apelido de brasiguaios que é a mistura de brasileiro com paraguaio.
Como a maior parte dos brasiguaios é constituída por pequenos agricultores expropriados de suas terras, um dos principais destinos foi o reforço ao acampamento Antônio Irmão, montado pelo Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) a 90 quilômetros do limite entre os dois países.

Em março/2010 Juarez da Silva, filho de brasileiro, nascido no Paraguay, foi enviado a Brasil para conhecer o Acampamento Antonio Irmão no município de Itaquiraí/MS e levar de volta uma posição favorável ou não à vinda das famílias. Essa foi a porta de entrada para que tantos brasileiros e brasileiras que viviam no país vizinho, voltassem ao Brasil. Pois de uns anos pra cá, parte desses agricultores vem enfrentando conflitos com os paraguaios sem-terra chamados "campesinos" como: Invasões, ameaças, violência e até morte de companheiros.


ALGUMAS CARACTERISTICAS OBSERVADAS NO ACAMPAMENTO

1) Cerca de 150 famílias brasiguaias são oriundas de Santa Tereza-PY. Foram para Paraguay motivadas pelas terras baratas e de excelente produtividade. Alí compraram o "direito à terra", o que dava direito de produzir e não de serem donos da terra. Se estabeleceram como proprietários, alguns por mais de quarenta anos. Tiveram filhos e netos, porem, poucos os que foram registrados como filhos da pátria vizinha. Afirmam que os conflitos entre paraguaios e brasileiros eram comuns desde 2005, mas a situação piorou nos últimos meses onde preferiram abandonar as terras antes que fossem alvo dos ataques dos "campesinos".
"Morava há 30 anos lá e agora estou aqui com uma mão na frente e outra atrás. A polícia chega, bate nos brasileiros, depois os camponeses invadem, roubam nossos animais, queimam a gente com cigarro." Delcio Nees,

2) Um segundo grupo de cerca de 100 famílas, são provenientes de Puente Quijá, La Paloma e Salto del Guairá, na região mais da fronteira. Esses, em sua maioria foram ao Paraguay como empregados de fazendeiros brasileiros e/ou paraguaios. Cansados do trabalho forçado (diária de 12 horas), e sem resultados, decidem engrossar o Acampamento em busca de conseguir a terra para trabalhar e se sustentar através dela.

3) O demais são familias da região sulmatogrossense que sonham com a terra. Muitos já vem a anos, passando de acampamento em acampamento. Já se acostumaram com a vida debaixo do barraco, mas o anseio de ter o seu pedacinho de terra é muito grande.


ORGANIZAÇÃO NO ACAMPAMENTO

Acampamento:
- Tenda da Esperança;
- espaço para o cultivo da solidariedade;
- exercício de resistência;
- prática da partilha...
Acampar é a certeza de que ali é uma experiência transitória, mas também necessária. O Acampamento Antonio Irmão é organizado por grupos de 50 famílias, formando uma comunidade. Estão no 9º grupo, ainda não tem o 10º completo, isso quer dizer que estão com quase 500 famílias no acampamento. Além dessas comunidades, se organizam por núcleos de base - NB. Cada NB são constituídas de 10 famílias.
- NB da educação - conseguiram mobilizar para que uma escola para os pequenos funcionasse dentro do acampamento. Hoje conta com dois professores que já passaram pela experiência do acampamento e foram assentados em municípios vizinhos. Algumas crianças e adolescentes do 5º ano para frente, freqüentam as escolas de Itaquiraí. Para isso, a prefeitura dispõe de condução para levar e trazer os estudantes.
- NB da saúde - Articulam com toda a comunidade para os cuidados com a saúde. Conseguiram um pequeno tratamento da água que é de poço, que por estarem pertos dos sanitários não era potável. Mantêm no acampamento uma pequena farmácia para emergências.
- NB cultural - responsáveis pela organização de festas, eventos, teatros. Para o dia das crianças, estão programando uma confraternização.
- NB mercado - o mercado é do acampamento e o atendimento nele é feito em rodízio. Deve prover os acampados com o básico. O lucro é revertido para o próprio acampamento
-NB da Produção - Responsável de buscar sementes e incentivar o cultivo de hortaliças, mandioca, banana, etc. para ajudar na alimentação das famílias.
-NB do trabalho - 4 pessoas desse núcleo são responsáveis de conseguir trabalho para todos. Para isso contam com o aporte de R$ 2,00 de cada família acampada para custeio das viagens. Praticamente todos os dias sai um ônibus que leva 45 pessoas para capinar, arrancar ou plantar mandioca no Paraná, isso é feito também em rodízio para que todos tenham a oportunidade de trabalhar recebendo uma diária de R$30,00. Outros estão trabalhando no corte da cana, outros ainda, conseguem algum serviço em Itaquiraí.
-NB do Bem estar - tem a função de amenizar os conflitos que surgem e zelar para que todos estejam bem. Também é esse grupo que organiza a segurança no acampamento. Enquanto todos dormem e descansam, um grupo de 8 pessoas, também organizados por rodízio, passam a noite cuidando do acampamento.

DESAFIOS e INQUIETAÇÕES

1) 3 meses sem receberem a cesta básica (deduzimos que foi cortada por motivos políticos), e com isso já tem famílias passando necessidades;
2) Grande número de analfabetos, pouca formação.
3) Muitos sem documentação alguma, nem do Paraguay e nem como brasileiros
4) Casais divididos. Um(a) está no acampamento e outro(as) continua no Paraguay buscando resolver e concluir as atividades por lá;
5) Como ocupar o tempo ocioso de homens e mulheres que passam todo o dia no acampamento?

ENCAMINHAMENTOS

Estivemos em Itaquiraí para uma conversa com a prefeita Sandra, mas não a encontramos. Fizemos essa conversa então, com uma pessoa da Secretaria de infra estrutura e com a paróquia local.
Apresentamos nosso relatório das observações desses três dias que estivemos no acampamento para que possam pressionar os órgãos competentes.
Nossas Sugestões:
1. Pressionar o INCRA para com a distribuição das cestas básicas;
2. Desenvolver pequenos cursos de qualificação em vista da geração de trabalho e renda no acampamento e a regulamentação dos documentos pessoais dos acampados;
3. Com a Secretaria de Educação, ver a possibilidade da educação de Jovens e Adultos;
4. Através da secretaria de saúde, disponibilizar agentes de saúde que façam o acompanhamento das famílias;
5. Com a Paróquia de Itaquiraí, organizar e dinamizar a Pastoral da Criança, o atendimento à catequese e às celebrações.

SENTIMENTOS E ALGUMAS EXPRESSÕES:

As construções de lona, a precariedade das moradias e as condições adversas para uma vida digna, ocupam os dois lados da rodovia. Rodovia esta, com intenso tráfego de caminhões. Mas essa dura vida e realidade não intimidam o grande desejo de recomeçar uma nova vida daqui para adiante. O sonho de uma vida melhor continua o mesmo como aquele quando saíram do Brasil rumo ao Paraguay.

"No começo até foi bom, mas depois os campesinos judiavam dos brasileiros", relata Irani, referindo-se aos campesinos, grupo semelhante aos sem-terra brasileiros. A trabalhadora tem 12 filhos, sendo quatro nascidos no Brasil e todos registrados como brasileiros.
No Paraguay, a família trabalhou em lavouras de algodão e soja.

"Aqui é melhor. Estou sofrendo, mas sofrendo no lugar certo. Este é meu país". "Fui para o Paraguai procurando o melhor e achei o pior". José Anselmo dos Santos da Cruz, de 42 anos

"As ameaças eram constantes. Eles colocavam fogo nas casas, roubavam a criação e impediam a gente de plantar". A estratégia para barrar o plantio era esconder tábuas com pregos na terra, furando pneus e machucando as pessoas.

Foram apenas 3 dias de convivência com esse povo. A presença de Deus ali era viva e se traduz em vida, ou melhor, em esperança de uma vida nova, em esperança de deixar para trás tudo aquilo que não foi bom. O sonho da terra, da liberdade, de estar em seu país, não como estrangeiro (a), mas como filho(a), lhe dá o grande sentido para a vida.
É tanta esperança da parte de cada um deles(as) da conquista da terra, que chega a emocionar a gente, principalmente pela incerteza quanto a desapropriação das fazendo, as quais estão sendo negociadas com o governo federal.

Domingo nasceu uma linda menina. Ainda sem nome, Cíntia ou Cleonice, aquele pequeno ser, já vem carregado de sonho, ainda que sem ter o que comer, apenas se alimentando de chá, carrega em si o ápice da esperança.
Conta com a alegria e a acolhida de seus seis irmãos que junto com toda a comunidade, partilham do pouco que ainda resta do alimento.

Ali Deus realmente é Pai, é Mãe....
Deus é.... com cada um(a).


Neusa Gripa
Dourados, 7 de outubro de 2010


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    Sobre o autor
Neusa Gripa

Irmã Catequista Franciscana e coordenadora do Banco Pire (Banco Comunitário de Desenvolvimento)
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