A Boa Fé do Povo Brasileiro
(17/10/2010)

Dois milhões de santinhos religiosos com a imagem de José Serra e com as frases
"Jesus é a verdade e a justiça" e "Serra é do Bem" foram impressos pelo comando da
campanha tucana para serem distribuídos nas regiões Sul, Sudeste e Centro-Oeste [1]. E
outros milhões serão impressos em São Paulo para distribuição em todo o país, segundo
os jornais. A utilização política de igrejas e religiões para a eleição de Serra segue em
frente, após o êxito obtido com a exploração eleitoral do aborto junto a igrejas
evangélicas e católicas que levou o candidato ao segundo turno manipulando
cinicamente a boa fé das pessoas desinformadas [2], pois foi o próprio Serra, quando
Ministro da Saúde, quem aprovou e assinou a norma técnica para a realização de
abortos, legalmente autorizados, no SUS [3]. Mas o candidato agora foi além: estampou
milhões de panfletos com uma frase que proferiu sobre Jesus, impressa acima de sua
própria foto e do número do PSDB, como colinha para os eleitores levarem às urnas no
dia da eleição [4].
A luta do bem contra o mal, encarnada por Serra, recoloca a política na esfera do
maniqueismo, da luta dos santos contra os pecadores. A sua atitude messiânica, com as
frases que se concluem sempre em eu sei, eu posso, eu farei, eu garanto, reforçam a
ideia do homem salvador que remirá o Brasil de todo o mal da corrupção, daquele que
será o eleito, para que se cumpram as promessas do bem que ele enuncia. Conectado
com o sagrado, lê a bíblia na propaganda eleitoral - com os cortes de imagens e
enquadramentos adequados, para que se veja o brilho nos olhos do escolhido para
propagar a verdade e a justiça. E na medida em que as pessoas votam em Serra por sua
oportunista pregação sobre Jesus, distribuída em milhões de santinhos pelo território
nacional, vai sendo sepultada em nosso país a democracia e a própria liberdade
religiosa. Mas por que digo isso? Porque em um Estado Democrático não se pode
confundir a moral religiosa, com a ética e o direito. Me explico.
A liberdade religiosa em nosso país é assegurada pelo Estado. Em nosso país cada
pessoa pode viver segundo suas crenças e valores, segundo a moral de sua religião,
conquanto suas práticas não violem as liberdades públicas e privadas protegidas pela
lei. E do mesmo modo que nenhum crente gostaria que as normas morais de uma
religião estranha lhe fossem impostas como leis pelo Estado ou propagadas por este
com recursos públicos - como ocorre nas teocracias -, do mesmo modo nenhuma
pessoa religiosa pode pretender impor as suas crenças aos demais, muito menos através
do Estado. Isto seria a morte da democracia. Pois a lei, num Estado democrático, deve
ser expressão da ética e deve proteger o ético exercício das liberdades públicas e
privadas, assegurando-se iguais direitos a todas as pessoas, independentemente das
confissões religiosas que possam ter. A diferença entre ética e moral religiosa é que, no
plano ético, somente podem ser aceitas como defensáveis as posições racionalmente
fundamentadas e dialogicamente argumentadas. Trata-se da esfera do consenso em
favor de bem-viver de todos e não da defesa dos valores de uma religião contra outra.
Houve uma época em que o Rei de Portugal, pelo direito de padroado concedido a ele
pelo papa, era considerado representante de Deus no Brasil, com poder de definir quais
sacerdotes seriam sagrados como bispos e onde seriam erigidas as dioceses[5]. Houve
um tempo em que um ministro, o Marquês de Pombal, teve o poder de expulsar os
jesuítas do Brasil [6]. De fato, quando se confunde a religião com o Estado ou quando
não se respeita a liberdade religiosa, o resultado é a negação da democracia. E, para a
fragilização da democracia brasileria, em 31 de outubro de 2010, alguns milhões de
brasileiros de boa fé levarão o santinho religioso de José Serra para as seções eleitorais,
não para eleger um projeto de país, mas para cumprir uma orientação de fé.
Considero essa manipulação religiosa da boa fé das pessoas para eleger-se José Serra à
presidência não apenas um golpe na democracia brasileira, mas igualmente na própria
liberdade religiosa no país, consagrada em nossa Carta Constitucional. Não se pode
manipular a religião, partidarizando-se as igrejas, negando-se o sentido maior das
religiões em sua prática de religar as comunidades humanas na experiência
transcendente do amor e do perdão, semeando-se, pelo contrário, a discórdia e a
intolerância dentro das próprias igrejas e entre as religiões, manipulando-se a boa-fé das
pessoas, veiculando-se falsidades sobre temas polêmicos no seio das comunidades. O
Brasil necessita preservar o respeito à sua pluralidade religiosa, manter o Estado laico e
fortalecer o Poder Público democrático, baseado em valores éticos, racionalmente
argumentados e dialogicamente legitimados, única forma de preservar-se as liberdades
públicas e privadas em nosso país, multi-étnico, multi-cultural e multi-religioso.
A campanha eleitoral de José Serra, infelizmente, é um retrocesso na história
democrática e religiosa do país; é um desrespeito às religiões e às instituições
republicanas. Para muitos cristãos, o nome de Jesus é sagrado e não pode ser usado em
vão. Para estes, é triste ver o nome Jesus usado para fazer propaganda eleitoral daquele
que se auto-proclama o candidato do bem, o que deve ser eleito para que se cumpram as
promessas. E é mais triste ainda ver lideranças religiosas serem coniventes com essa
conduta.


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    Sobre o autor
Euclides Mance

filósofo e escritor, autor de Redes de Colaboração Solidária, publicado pela Editora Vozes.
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