Consciência Negra, para todos nós!
(21/11/2010)

O acontecimento da abolição da escravatura no Brasil, passados exatamente 122 anos, ainda faz refletir a existência de dois mundos em um mesmo país. Um país que ainda guarda as marcas da segregação, da separação racial entre negros e não negros, como uma marca que só aqueles/as com mais melanina na pele percebem com mais nitidez porque são vitimas diárias de ações preconceituosas.

Um fragmento de poema me faz refletir esta situação na qual "cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é". Estes mundos que quero evidenciar nestas reflexões, fazem parte de uma lógica racial perversa, calçada na ideologia do branqueamento brasileiro. Veja bem, por conta de situações assim me questiono, por que uma comissária, prestando serviço de bordo, ignora o assento que nele está um passageiro negro?

Ao mesmo tempo em seu sagrado ofício, ao servir passageiros ignora justamente a poltrona em que está um negro sentado. Questionei a comissária, ela irritada, justificou que eu estava dormindo. Duas senhoras idosas se solidarizaram comigo, porque presenciaram a atitude meramente preconceituosa.

Não me calei e a atitude imediata foi encaminhar minha reclamação formal à companhia aérea. Mas, atitudes como as relatadas acima acontecem todos os dias em nosso país. Algumas vezes envolvem pessoas negras em função do racismo brasileiro, outras vezes com pessoas idosas, contra pessoas com deficiência, hora por homofobia, ou mesmo o machismo, elemento importante em uma sociedade com fortes heranças patriarcais que insistem em colocar a mulher na cozinha.

Não posso deixar de dizer que a tudo isso se soma a condição de ser pobre, que é mais uma realidade. Mas, destaque-se, o Brasil também reage ao preconceito, é capaz de eleger um torneiro mecânico e agora uma mulher para o cargo mais importante do país, a Presidência da República.

Sobre o mês da consciência negra enfatizo que é preciso não apenas refletir, mas perceber a necessidade da fiscalização do Ministério Público no cumprimento das leis pelos entes federativos. Principalmente estados e municípios, o que fortalece políticas públicas não discriminatórias.

O mundo atual, não é aquele do final de 1888, ou do início da República 1889, a mudança vem acelerando rapidamente. Estamos em um mundo cujas competências individuais fazem à diferença, independentemente de serem realizadas por negros, mulheres, pessoas idosas, com deficiência, homossexuais e etc. Um mundo onde discriminar, corroborando com o ator Milton Gonçalves, é vergonhoso. Discriminar gera inclusive prejuízos ao mundo dos negócios das empresas. O fato que originou este artigo está em contradição com o atual estágio da sociedade brasileira.

Segundo dados estatísticos, nos últimos anos trinta milhões de brasileiros migraram de posição social, o que por sua vez aumentou o consumo e fortaleceu a economia. Isto implicou também a presença de gente hora percebida apenas como força de trabalho, na condição de ser servida, e isto, dói. Fere o brilho de gente preconceituosa.

Ao mesmo tempo é preciso que haja uma maior preocupação das empresas que prestam serviços à população, na qualificação, treinamento de seus funcionários e é lógico, investir na presença da diversidade étnico-racial. Ganhará aquela que estiver mais preparada para encarar o desafio de acompanhar o Brasil e crescer.



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    Sobre o autor
José Eduardo da Silva Batista

Assistente Social, Assessor Especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial do município de Goiânia
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