Bancos Comunitários
(06/09/2011)

“O atual sistema financeiro é composto de uma parte capitalista, que tem
como objetivo o lucro, uma parte estatal que deveria ter como objetivo a
prestação de serviços ao público e uma parte social ou solidária que se
preocupa com o atendimento de comunidades excluídas do acesso aos serviços
das outras duas partes.”
Paul Singer



O sistema financeiro brasileiro está longe de atender às demandas das pequenas empresas e empreendimentos diversos, e mais longe ainda do segmento mais pobre da população que vive de comércios informais e de trabalhos manuais, tidos como artesanais.

Este sistema caracteriza-se por concentrar o poder econômico e financeiro nas mãos dos bancos privados, excluindo assim, uma parcela da população com menor poder aquisitivo, do acesso a serviços financeiros e contribuindo para o círculo da desigualdade social.

O acesso a créditos, por exemplo, é um direito reconhecido, desde 1996, pelo Programa Nacional de Direitos Humanos do Ministério da Justiça. Ainda assim, grande número de trabalhadores (as) e empreendimentos de economia solidaria, têm dificuldade para acessá-lo. O Brasil ainda não tem uma estrutura bancária que atenda às necessidades dos pequenos trabalhadores e trabalhadoras.

Como resposta a este contexto de restrição do acesso a serviços financeiros, os bancos comunitários no Brasil vem tornando-se uma estratégia inovadora neste campo. Além disso, os bancos comunitários têm se mostrado eficazes no desenvolvimento de regiões tanto do ponto de vista econômico quanto social.
- No âmbito econômico, ele potencializa os recursos locais existentes, além de injetar recursos financeiros com a concessão de crédito produtivo a juros baixos. Além da questão do crédito, a criação da moeda-social local que permite que a riqueza produzida por essa comunidade não seja utilizada fora, mas fique circulando internamente.
- Do ponto de vista social, a circulação da moeda social e o envolvimento da comunidade em todo o processo, proporcionam também transformações nas relações entre seus membros. O fato de a própria comunidade ser gestora do banco demonstra um certo grau de organização, de forma a aumentar sua capacidade política frente aos órgãos públicos, além do seu potencial de parcerias no desenvolvimento de novos projetos.

Ao contrário dos demais bancos convencionais, os bancos comunitários são criados a partir de uma decisão da comunidade, que é a proprietária e gestora do banco. Atua geralmente com duas linhas de crédito: uma em real e outra em moeda social, apenas nas comunidades de sua área de abrangência.

Os bancos comunitários apóiam empreendimentos solidários, feiras, lojas solidárias e outras atividades que aquecem a economia local, gera emprego e renda. Podem ainda oferecer empréstimos de consumo e produtivo em moeda social e nacional (real). Com mais dinheiro no bolso, as pessoas passam a comprar mais e na própria comunidade. É como se fosse um “círculo vicioso” no bom sentido.

Com essas mesmas características mas de 40 novos bancos estão sendo criados no Brasil até o final de 2012 através do projeto de Apoio às finanças solidárias com base na organização de bancos comunitários da SENAES/MTE. Na Região Centro Oeste, onde já temos o Banco Pire, em Dourados/MS, mais nove bancos serão implantados. Alguns já deram a guinada inicial.
- Mato Grosso em Rondonópolis, através da Associação Dando as Mãos;
em Cuiabá – com a CUFA (Central Única das Favelas);
- Mato Grosso do Sul Anastácio – Cooperativa de produtores de Farinha Ass. Itamarati – Associação de Cidadania São José.
Também estão se mobilizando as comunidades de Campo Grande, Distrito Federal e de Goiás.

O Banco Pire vem atuando junto aos empreendimentos de Economia Solidária desde janeiro de 2004, e já realizou mais de 400 créditos para a produção e para o consumo, contribuindo diretamente com a geração de trabalho, renda e por mais vida, a mais de mil famílias. Atua também no apoio à comercialização de produtos e serviços da Rede de Economia Solidária através de feiras, lojas solidárias, eventos relacionados etc. Contribui grandemente na formação política da economia solidarias junto aos núcleos de base (8 núcleos organizados por regiões), na Escola de Formação em Economia Solidária e em cursos e encontros diversos. Ainda fomenta a discussão das formas de legalidades dos empreendimentos. Foi assim que surgiram as micro empresas –PireVest e Pire Produtos de Limpeza, cooperativas, grupos informais, etc.

A moeda social – Pirapire – (palavra guarani que quer dizer: dinheiro), circula em Dourados desde 2007, promovendo o consumo de produtos e serviços locais, favorecendo as trocas entre os empreendimentos de economia solidária e contribuindo para a organização da economia e desenvolvimento local.

O Banco Pire se lança para mais um projeto desafiador: estender a sua atividade até então concentrada aos empreendimentos de Economia Solidária, para um território, ou seja, 6 bairros, onde o IDH da população ali residente é considerado o de extrema pobreza. Neste território, o Banco Pire buscará junto as comunidades, criar mecanismos de desenvolvimento local a partir da circulação da moeda social- Pirapire e do crédito para a produção e consumo local.

Desafios não faltam e, felizmente, também não faltam propostas para avanços inovadores tanto na organização dos empreendimentos, como na produção e comercialização. Podemos dizer que hoje a Economia Solidária está recuperando o sentido original da própria economia, em que a produção, a distribuição e o consumo estariam voltados para o bem estar das pessoas e não apenas para o lucro.
Um outro mundo já é possível nessas e em tantas outras organizações.

Neusa Gripa, ICF
Coordenadora do Banco Pire



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    Sobre o autor
Neusa Gripa

Assistente Social, coordenadora do Banco Pire
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