Sob as sombras das árvores, reconstruindo a vida
(23/09/2011)

A alegria e beleza,
Reza e luta,
Resistência
E paciência,
São algumas das características que tem distinguido a comunidade Kaiowá Guarani de Laranjeira Nhanderu, nesses últimos quatro anos. Tempo de peregrinação desde a saída do confinamento, na Terra Indígena Panambi, município de Douradina, para seu tekohá, à beira do rio Brilhante. De lá foram despejados para a beira da estrada. Há três meses voltaram para seu tekohá. Sobre suas cabeças está novamente o tormento do despejo. "Só em pensar do despejo já fico desesperado. Isso dói muito”, disse a liderança Faride.

Sob as sombras das árvores, reconstruindo a vida
Sol quente. Só amainado pela gostosa sombra das árvores. Por coincidência no dia da árvore. Fato esse ressaltado na fala do representante do C PT na caravana da solidariedade. "Há muito tempo não celebro um dia da árvore tão bonito. Posso afirmar que é o verdadeiro dia da árvore, junto aos povos da vida, defensores da natureza, os Kaiowá Guarani”. A liderança Zezinho reforçou esse sentimento dizendo "Os grandes da agropecuária, do agronegócio não preservam a mata, os rios, os pássaros, o meio ambiente... Eles são destruidores das árvores. E agora querem despejar nóis pra onde não tem árvores. Vamos vencer essa batalha juntos”.
Apesar das ameaças de despejo, a vida e a luta continuam. Até alguns filhotes de animais da floresta, como porquinhos do mato, catetos, cutias, tatus, vão se incorporando ao círculo da vida ao redor dos barracos. Já vão surgindo as casinhas de sapé. E o mais importante é que já existe uma casa de reza construída. Essa lhes dá a certeza de que da li não serão mais retirados.
Da região de Campo Grande, de Dourados, de Rio Brilhante foram chegando os aliados da causa para se encontrar com a comunidade de Laranjeira Nhanderu que veio para a beira da estrada, para recepcioná-los. No local onde estiveram acampados por um ano e meio agora nada mais restava. Os barracos e estruturas que ainda sobravam, foram ontem removidos pelo DNIT. Talvez foi a tentativa de remover a memória da crueldade cometida contra essa comunidade indígena.
Porém, ao contrário do que possam pensar, todas essas ameaças e ações vão reforçando a resistência, união e certeza de que daí não mais sairão. "Daqui não vamos sair de jeito nenhum” reforçaram as lideranças em vários momentos, das horas em que o grupo de representantes dos movimentos sociais e aliados estiveram ali com eles. Sentiram-se fortalecidos em sua decisão e na luta por seus direitos, especialmente o direito de ficarem em seu tekohá. Não aceitam de forma nenhuma a remoção como decidiu o juiz e quer o DNIT. O local para onde os querem levar é absolutamente imprestável para o modo de viver Kaiowá Guarani. Descampado, cheio de formiga, sem água, terra enfraquecida...
Os representantes da coordenação da Conferência dos Religiosos do Brasil CRB-MS, da CPT-Comissão Pastoral da Terra, do Conselho Indigenista Missionário-CIMI-MS, do Movimento dos Trabalhadores Rurais de Rio Brilhante, do Movimento dos Sem Terra – MST, da Via Campesina, do Movimento de Mulheres, Conselho das Mulheres Guarani, de Nhanderu e Nhandesi da terra indígena de Dourados, todos ficaram muito emocionados e satisfeitos por estarem com um povo de tão forte resistência. "Somos guerreiros natos e fortes, não nos entregamos aos poderes da morte” disse Suzi, sobrinha de Marçal de Souza. Odete fez uma fala inflamada e indignada, repetindo as palavras de D. Pedro Casaldáliga "Malditas as cercas e as leis contra o povo...”, onde existe cerca o povo passa fome.

A mais velinha do grupo com quase cem anos, já cega, não podendo mais andar, ficando apenas dentro do barraco, agora dentro do mato, assim expressou sua alegria ”Agora me sinto em paz, pois não escuto mais o barulho dos carros, só o som da mata”.

Povo Guarani Grande Povo
Dourados, 22 de setembro de 2011









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    Sobre o autor
Egon Dionísio Heck

Assessor do Conselho Indigenista Missionário (CIMI) Mato Grosso do Sul
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