RESISTIR NO CERRADO
(07/08/2012)


“A própria criação espera com impaciência a manifestação
dos filhos de Deus. Entregue ao poder do nada não por sua
própria vontade, mas por vontade daquele que a submeteu,
a criação abriga a esperança... Sabemos que a criação toda
geme e sofre dores de parto até agora” (Rom. 8, 19-22).

Nós, agentes da CPT, que atuamos nos estados brasileiros em defesa do bioma Cerrado e de seus povos, debatemos durante o nosso segundo encontro, Goiânia-GO, 29 a 31 de julho de 2012, os impactos causados pelas empresas capitalistas nos solos, nas águas e na biodiversidade deste bioma, vitimando comunidades indígenas e camponesas, sendo alguns destes danos irreversíveis.
O cerrado é um bioma que ainda necessita ser melhor conhecido, nacional e internacionalmente, quanto à sua importância em relação à diversidade biológica da fauna e da flora e das populações tradicionais que o habitam e com ele convivem harmoniosamente, tendo nele a base para sua reprodução.
Na sua exposição, o professor Dr. Altair Sales Barbosa (PUC/GO) deixou explícito que 80% do Cerrado já foi destruído. Com efeito, desde os anos 70 do século passado, este bioma foi alvo dos investimentos do agrohidronegócio: em quatro décadas, um sistema que tem aproximadamente 65 milhões de anos foi quase extinto e, tendo já atingido o seu clímax evolutivo, não poderá mais ser revitalizado e reconstruído.
Cada planta e árvore do Cerrado têm específicos insetos e aves polinizadores, bem como cada semente tem a sua dormência quebrada pela digestão de específicos animais que permitem o seu desenvolvimento. Por sua vez as atuais configurações da vegetação do Cerrado são resultado das diferentes evoluções e adaptações da natureza, como, por exemplo, a palmeira do tucum que pode chegar a mais de mil anos e ter somente 50 centímetros acima do solo ou o buriti que para atingir a idade adulta leva 500 anos.
Toda esta complexa biodiversidade está sendo extinta pelos plantios exóticos da cana, da soja e do eucalipto, bem como pelo uso dos agrotóxicos. Além disso, o desenvolvimento da agricultura capitalista nas áreas de recarga d´água provoca a cimentação da superfície terrestre diminuindo a infiltração da água das chuvas que alimentam os principais aqüíferos brasileiros, dentre os quais: Guarani, Urucuia e Bambui, que são os “pais” das principais bacias hidrográficas brasileiras. Destes aqüíferos brotam as nascentes do rio São Francisco e da maior parte dos seus afluentes; as nascentes dos rios que formam a bacia Paraná-Prata e nascentes dos rios da bacia Amazônica, como o Araguaia e Tocantins, o Teles Pires e o Madeira.
A redução das reservas de água nos aqüíferos tem colocado em risco de extinção várias nascentes, que vão migrando (secando), pois a água das chuvas deixa de se infiltrar, de forma irreversível, somando-se á tragédia provocada pelo assoreamento dos leitos dos rios e à destruição das matas ciliares.
Reafirmamos o protagonismo dos camponeses, que habitam o Cerrado, e que são os reais “guardiões deste bioma”. O nosso foco de atuação enquanto Comissão Pastoral da Terra será o de apoiar a resistência e organização destes povos originários e comunidades tradicionais camponesas, dos grupos de mulheres, o trabalho de recuperação e preservação de nascentes, as parcerias locais, a criação de quintais produtivos ecológicos, as ações de enfrentamento e combate ao trabalho escravo, dentre outros.
Clamamos para que o Cerrado seja considerado um espaço fundamental para a reprodução da vida, para cumprir papel de destaque ecológico na preservação da natureza na região central do Brasil. O povo brasileiro precisa conhecer este bioma que é “pai e mãe das águas”, e para isto é necessário:
1) Conhecer e se comprometer com a realidade do Cerrado brasileiro e construir estratégias para sua preservação e conservação baseados na vida de quem nele vive e convive.
2) Defender os Territórios Tradicionais dos povos do Cerrado, bem como apoiar a luta pela Reforma Agrária ressignificada, neste bioma;
3) Defender o Cerrado como área de recarga dos principais aqüíferos brasileiros e fortalecer experiências de preservação de nascentes.
A CPT quer estar presente nesta luta e por isso desencadeia um processo de articulação interna de seus regionais em torno do Cerrado, articulando-se também com outras redes, fóruns, pesquisadores, universidades e entidades que atuam e tem o Cerrado como prioridade.

Goiânia-GO, 31 de julho de 2012.



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